Uma Turista Negra em Cuba

Uma Turista Negra em Cuba

negra em cuba

Na maioria dos meus posts sobre como é viajar o mundo sendo negra eu falo sobre países onde os negros praticamente não existem, ou são uma minoria mas felizmente eu também tive oportunidade de ver o outro lado da moeda (e espero ver cada dia mais!)

Eu passei quase duas semanas em Cuba, divididos em várias cidades, estive em Cienfuegos que parece uma cidade do interior do Brasil, Trinidad, em Varadero e finalmente Havana onde passei muitos dias e vou contar como foi o meu contato com o povo cubano, minhas impressões de uma turista negra em Cuba.

negra em cuba

Em Cuba, não há tantos hotéis de rede como em outros lugares e a maioria dos turistas ficam em casas de famílias cubanas, o que para mim foi maravilhoso porquê tive muito mais contato com o povo cubano e voltei de lá muito encantada com várias coisas.

Eu cheguei em Havana a noite e no dia seguinte de manhã pegaria um ônibus para Cienfuegos, uma cidade colonial muito interessante e seria meu primeiro ponto de contato real com Cuba e com os cubanos. Já na rodoviária de Havana senti que apesar de eu ser uma das raras turista negra em Cuba, eu não era uma exceção entre as pessoas que esperavam o ônibus.

negra em cuba

Na primeira casa onde fiquei em Cienfuegos, além de ser muito bem tratada a dona da casa ficou impressionada quando me viu, ela colocou o braço dela junto do meu, e não cansava de repetir que nós duas tinhamos a mesma cor, foi um das recepções mais calorosas que tive na vida.

Claro que tentei conversar com os locais sobre racismo em Cuba, e claro existe racismo em Cuba mas ele está menos atrelado a questões sociais que no Brasil por exemplo. Assistindo a televisão cubana, eu pude ver negros apresentadores e em cargos de chefia, algo que ainda é um tanto raro no Brasil apesar da quantidade de negros no país.

negra em cuba

Uma negra em Cuba sendo turista

O que eu percebi em Cuba, é que os cubanos estavam muito feliz de me ver ali, uma negra sendo turista. A maioria dos turistas que eles recebem são brancos europeus, mas estava ali eu, que além de ser negra como muitos, ainda sou sulamericana.

negra em cuba

Eu senti bem forte a questão da representatividade que falamos tanto, o quanto é importante ter exemplos de pessoas negras para nós, exemplos de negros bem sucedidos e que estão em papéis dominantes. Era como se eu, a turista negra estivesse de certa maneira mostrando a eles que se eu estou ali viajando e conhecendo outros lugares, eles também podem.

Era evidente que o fato de eu ser negra e ser como eles me trazia vantagem, claro que os cubanos são extremamente simpáticos e gentis com todos os outros turistas, mas eu senti uma real identificação comigo, e Cuba juntamente com a Turquia foram até hoje os países mais tranquilos para mim como uma viajante negra.

negra em cuba

Eres cubana?

No, soy de Brasil

A pergunta que eu mais ouvi durante meus dias em Cuba era se eu era cubana, pelos quase quarenta países que já visitei, nunca vivi isso de maneira tão intensa e tão sensível como em Cuba. Sabe quando as pessoas falam de viagem e de se fundir entre os locais? Para mim isso é quase impossível uma vez que a maior parte das minhas viagens são para a Europa.

negra em cuba

Negrita con Turbante

Eu estava tão a vontade, mas tão a vontade em Cuba que uma noite antes de sair para jantar eu peguei um lenço que tinha comigo e fiz um turbante para sair. Tudo bem que estava mal amarrado, ainda estou aprendendo, mas essa foto fez um sucesso danado no meu Instagram pessoal.

Eu já tinha saído de turbante muitas vezes em Paris e em Londres, mas uma coisa é na cidade que eu moro, e outra coisa é estar num país desconhecido, e quando viajo sempre tento passar despercebida, mas em Cuba eu tinha certeza que poderia ser eu mesma e não ser vítima de racismo.

Tá certo que eu não vi outras pessoas em Cuba usando turbante, aliás até vi muitas mas eram turbantes do Candomblé e elas estavam usando por motivos religiosos, mas me senti muito a vontade por lá, ninguém me olhava estranho ou coisa do tipo, e usei meu turbante por muitos dias.

negra em cuba

Negra em Cuba e o alisamento

Uma coisa que me entristeceu um pouco foi ver que praticamente não há cubanas usando o cabelo natural, era uma das primeiras vezes que eu viajava e me fundia perfeitamente na população mas fiquei surpresa em ver a quantidade de mulheres que não usam o cabelo natural, arrisco dizer que 95% das negras cubanas alisam o cabelo.

Eu não acho um problema alisar o cabelo, mas quando 95% das negras alisam quer dizer que sim há um problema em acreditar que só o cabelo liso é bonito e aceitável e isso me deixou bem triste de ver tanta negra em Cuba sem cabelo natural, estava feliz de não ser a única negra, mas fiquei triste de ver que uma das características mais marcantes nossa era simplesmente apagada.

 

 

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Uma menina baiana morando em Hong Kong. Já chamou de casa cidades como Paris e Londres e hoje se aventura na Ásia. É viciada em viajar e ama Istambul de paixão!

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17 Comments

  1. Mariel Moderno

    A característica que você mencionou (os cabelos alisados) é bem interessante e reveladora.

    Particularmente, quando ficava em hotel, me sentia mais à vontade pelo fato de, na minha cabeça pelo menos, poder sair e voltar a qualquer hora. Nas vezes em que fiquei na casa de conhecidos (foi no Brasil mesmo, São Paulo e Belo Horizonte), não me sentia bem fazendo isso. Sentia falta do contato humano que eu tinha nas casas e não nos hotéis, mas passei a preferir os últimos.

    Reply
    1. Paula Augot

      Mariel

      Nesse caso era mais tranquilo pq não era conhecido, era como um hotel mesmo onde eu tinha a chave e podia entrar e sair qdo quisesse, mas realmente eu me sinto mais a vontade no hotel.

      Reply
  2. Pâmela Rocha

    Paula, é um prazer encontrar seu blog e ver mais uma viajante negra ocupando os espaços. Orgulho de vc! Beijos

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  3. Pat Alves

    Paula, que adorável leitura! Estive em Cuba em abril de 2016 e me senti exatamente assim: invisível! E como é bom se misturar aos moradores. Os cubanos são muito bem informados e o que eu achava curioso é que eles se espantavam quando eu falava que era brasileira! Uma vez, uma cubana alegou que as novelas brasileiras quase não tinham negros e por isso o espanto dela. Realmente. Na TV cubana não vê a disparidade que há na TV brasileira. Tem um lado bom e um lado ruim. Eu experimentei os dois lados. Vou contar duas estórias.

    (1) Em Playa Ancón, perto de Trinidad, estava na praia com um casal de argentinos. Eu fui para a fila comprar um sanduíche. Era a minha vez e atrás de mim havia um turista de pele alva e olhos claros. Você acredita que o atendente me ignorou e atendeu o rapaz? Pense numa pessoa brava.?! Perguntei logo o porquê de não ter me atendido? E ao abrir a boca, o atendente se deu conta que eu era turista. Daí, perguntou de qual país era e blá blá blá. Provavelmente, ele devia achar que eu pagaria em moneda nacional, preço bem mais baixo e não quis me atender de primeira.

    (2) Eu ia para Viñales de manhã bem cedo e a excursão da Cubatur passaria no ponto de referência, acho que era o hotel Inglaterra, bem cedo. Então, saí cedo da casa particular e cheguei no hotel Inglaterra ainda estava escuro. Eis que percebo que um homem chegou perto do porteiro do hotel e perguntou quem eu era. Aí percebi que o porteiro disse que eu era estrangeira (eu já havia estado no hotel várias vezes para acessar a internet). O que eu desconfiei: talvez o cubano curioso deve ter pensado que eu era uma cubana atrás da grana dos turistas.

    (3) A última noite da viagem, resolvi jantar em um quiosquezinho em Havana Velha. Você acredita que veio um cubano todo agressivo me perguntar o que eu estava fazendo ali jantando sozinha?! Eu olhei para ele incrédula! Passam-se alguns segundos e ele se dá conta que eu sou turista e me pede milhares de desculpas. Depois tenta ser simpático, lógico que perguntou que país eu era e ainda tentou me vender charutos cubanos! Neste episódio, percebi o quanto são machistas. Ele deve ter pensado que eu era uma cubana atrás de estrangeiros. Mas se eu fosse, isso não seria da conta dele!

    Enfim, eu disse 2 e foram 3! Quando voltar a vontade de escrever sobre as minhas viagens, vou colocar estas considerações sobre ser turista negra viajando sozinha. Seus posts são de grande ajuda.

    Reply
    1. Paula Augot

      Pat

      Adorei suas histórias! É verdade que na tv cubana a gente vê muito mais negros que aqui no Brasil por exemplo. Uma pena que você também tenha visto o lado negativo de não parecer turista. Voltei muito encantada com os cubanos e com o país.

      Reply
  4. Carol

    Tô procurando textos sobre Cuba e caí aqui, e achei muito bacana você não só falar da viagem, mas da sua percepção como negra. Cada vez meu coração se enche mais de amor por esse lugar (que pretendo conhecer em breve hehe). Obrigada por compartilhar.

    Reply
  5. Danycelle

    Oi Paula, Caí no seu blog por acaso, estou fazendo doutorado sobre a Tumba Francesa Cubana, agrupações como as irmandades de Negros no Brasil. Ano passado morei em Cuba 7 meses e adorei sua percepção enquanto negra, apesar de não encontrarmos um racismo institucionalizado em Cuba, ainda há muitas situações racistas. De maneira geral, Cuba é um país incrível e fico feliz que tenha se sentido acolhida lá, senti o mesmo! Do cabelo, uma pena mesmo, mas se um dia voltar a Cuba vai em Santiago de Cuba, lá os penteados afros e a moda do cabelo liso não chegaram com a força da capital Havana. Ganhou uma leitora! Muito interessante seu blog!

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    1. Paula Augot

      Danycelle

      Justamente tive que cortar Santiago por falta de tempo, mas quando voltar certamente irei! Que bom saber dessas coisas, essa questão do cabelo foi uma das poucas coisas que não gostei no país, mas bom saber que não é assim em todo lugar.

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  6. Marcela

    Oi, Paula!!
    Estive em Cuba há 2 meses e também escutei muitas vezes o “eres cubana?” apesar de ser branca, mas justificavam que eu não era tão branquinha assim e que minhas roupas não eram iguais a dos outros turistas haha Então imagino que pra você deve ter rolado uma identificação bem bacana!!
    Duas coisas que me marcaram muito foram: um cubano, negro, me parou no malecón de Havana e ficamos conversando sobre Cuba e Brasil. Me contou que lá eles assistem a muitas novelas da Globo (outros cubanos já tinham me falado o mesmo), mas aí um pouco depois ele vira e fala apontando pra pele do seu braço “no Brasil existem pessoas assim? Como eu?”. Fiquei tão espantada, mas é aí que a gente lembra como há uma sub representação gigantesca na mídia ne… E uma outra situação foi no último dia, tava andando pela Calle Obispo e uma mulher negra me parou oferecendo alguma coisa pro cabelo, mas ela usou o termo cubano e eu fiquei olhando pra ela com aquela cara de turista que não tá entendendo nada, ai ela “de onde você é?” ai eu disse e ela “aaah, você conhece! é tererê” e ficou super feliz de eu ser brasileira. Ficamos conversando e um tempo depois ela me abraçou e me agradeceu por ter tratado ela tão bem e disse bem emocionada que os outros turistas são super racistas e tratam o pessoal mal.
    Enfim…

    Adorando o site!! Um beijo

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    1. Paula Augot

      Marcela

      Sim, há pessoas brancas em Cuba, e praticamente qualquer pessoa do Brasil poderia ser cubana! Uma coisa que me chamou atenção foi que na televisão cubana há muitos negros em posição de destaque, enquanto no Brasil isso é algo bem raro, salvo exceções, os negros são escravos ou domésticos nas novelas, e isso precisa acabar.

      A moça do tererê me fez lembrar uma moça que me parou na rua em Havana também, estava com uma amiga, e apesar da gente não poder ajudar a moça, fomos educadas e simpáticas com ela, ela é um ser humano como nós, e ela me contou que tem gente que só faz virar a cara! Que triste!

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  7. Murilo

    Muito legal seu blog, moça…
    Sempre quis conhecer Cuba, desde pequeno..
    Hoje não sou mais pequeno ( só no tamanho ) mas a vontade de conhecer Cuba um dia ainda continua…
    Breve, pretendo conseguir tomar as providências necessárias pra tirar esse sonho do papel…
    abs!

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